Em 1995, Curitiba foi palco de um avanço médico que transformaria o tratamento de doenças cardíacas no Brasil. A primeira cirurgia de Ross no país, um procedimento inovador para substituição de válvulas cardíacas, completou mais de três décadas de sucesso e impacto para a população.
Esta técnica de alta complexidade, que utiliza uma válvula saudável do próprio paciente, oferece riscos reduzidos e melhor qualidade de vida. Atualmente, está disponível tanto via planos de saúde quanto pelo Sistema Único de Saúde (SUS), marcando um importante capítulo nas atualidades da medicina brasileira.
O Que é a Cirurgia de Ross?
A técnica consiste na substituição da válvula aórtica doente pela válvula pulmonar do próprio paciente. A válvula aórtica é vital para bombear sangue oxigenado para o restante do corpo, sendo crucial para a vida.
No lugar da válvula pulmonar, é implantada uma estrutura proveniente de bancos de doadores humanos. Este método inovador minimiza problemas de rejeição e a necessidade de anticoagulantes contínuos, prática comum em outras substituições.
O procedimento é indicado para pacientes com condições cardíacas genéticas ou adquiridas que afetam a válvula aórtica. É uma intervenção de grande relevância devido à complexidade das doenças tratadas.
Vantagens e Desafios da Técnica
Diferente das válvulas mecânicas ou de origem animal, a técnica de Ross minimiza a necessidade de reoperações. O cirurgião Francisco Diniz Affonso da Costa foi o responsável por trazer a técnica do Reino Unido ao Brasil.
Válvulas de origem animal deterioram-se rapidamente, exigindo novas intervenções em poucos anos. As mecânicas, por sua vez, aumentam o risco de coágulos, demandando medicação anticoagulante contínua, com risco de acidentes cardiovasculares.
Apesar dos benefícios evidentes, o procedimento é considerado de alta complexidade. A escassez de profissionais especializados e a limitação de bancos de doadores são desafios significativos para sua expansão nacional.
Um Legado de Três Décadas
O Dr. Francisco Diniz, responsável por mais de 600 cirurgias de Ross no país, realizou o primeiro procedimento em 17 de abril de 1995, no hospital da Santa Casa de Curitiba.
Ademir Ribeiro, hoje com 61 anos, foi o primeiro paciente brasileiro a passar pela cirurgia. Ele relata uma vida sem complicações cardíacas desde a operação, demonstrando o sucesso duradouro da técnica.
A cada cinco anos, a equipe médica publica estudos científicos detalhando a evolução dos pacientes e aprimoramentos. Os resultados brasileiros são comparáveis aos de países europeus e dos Estados Unidos.
Impacto na Vida dos Pacientes
A cirurgia de Ross proporciona uma notável melhoria na qualidade de vida dos operados. Os pacientes conseguem retomar suas rotinas sem grandes restrições, participando ativamente da sociedade.
Gabriely Botjuk, hoje acadêmica de Direito e voluntária, é um exemplo de sucesso. Operada aos três anos, ela pôde levar uma vida normal e ativa, sem preocupações com futuras reintervenções ou limitações.
Histórias como a de Ademir e Gabriely ilustram o profundo impacto positivo do procedimento. Elas reiteram a relevância social e médica da técnica, influenciando o bem-estar de toda a população.
Expansão e Acessibilidade no Sistema de Saúde
A técnica está incluída no rol de procedimentos da Agência Nacional de Saúde (ANS), podendo ser realizada por planos de saúde. Além disso, é oferecida gratuitamente pelo SUS, garantindo acesso à população.
No entanto, a cirurgia de Ross ainda é pouco utilizada no Brasil. Dados do Ministério da Saúde indicam que, de quase 10 mil trocas de válvulas anuais, apenas cerca de 40 utilizam esta técnica, um desafio para o governo.
A falta de profissionais capacitados e de uma estrutura de doação robusta limitam a disseminação do método. Essas barreiras representam um ponto crítico para a economia e a saúde pública no país.
A cirurgia de Ross representa um marco na cardiologia brasileira, oferecendo uma solução duradoura para problemas cardíacos complexos. Aumentar sua aplicação requer investimentos em formação de especialistas e infraestrutura adequada.
Seu potencial de transformar vidas destaca a importância de políticas públicas que incentivem a pesquisa e o acesso a essas tecnologias inovadoras. Novos desdobramentos nessa área podem moldar o futuro da saúde e as decisões oficiais relacionadas.
Fonte: https://g1.globo.com



