Cerrado em Risco: Estudo Revela Falhas Críticas de Frigoríficos no Combate ao Desmatamento da Cadeia da Carne

Uma análise inédita da organização Radar Verde expõe a grave deficiência dos frigoríficos que operam no Cerrado em controlar a origem de seus fornecedores de gado. O levantamento, que abrange 225 empresas, revelou que impressionantes 96% delas foram classificadas com "grau muito baixo" de compromisso socioambiental na prevenção do desmatamento. Esta é uma questão de relevância nacional, visto o papel estratégico do agronegócio e a importância ecológica do bioma.

A pesquisa, que avaliou 262 plantas frigoríficas, identificou lacunas significativas, sobretudo no monitoramento de fornecedores indiretos – fazendas de cria e recria onde o gado permanece antes do engorde final. Nenhuma das companhias avaliadas demonstrou controle efetivo sobre essa etapa crucial, e apenas sete apresentaram algum nível de acompanhamento para fornecedores diretos. Além disso, a baixa transparência é um problema evidente, com nenhuma empresa respondendo ao questionário da entidade, sendo o estudo baseado em informações públicas.

O relatório destaca que os mecanismos de rastreabilidade e controle existentes no Brasil foram historicamente desenhados com foco na Amazônia, especialmente após a implementação dos Termos de Ajustamento de Conduta (TACs da Carne). No entanto, para o Cerrado, não há um instrumento equivalente com a mesma capacidade de fiscalização e aplicação de penalidades, tornando o monitoramento ineficaz e abrindo brechas para a aquisição de animais oriundos de áreas desmatadas, mesmo que o frigorífico compre de uma fazenda regularizada.

As características do desmatamento no Cerrado também divergem da Amazônia. Grande parte da supressão da vegetação ocorre em propriedades privadas e, em muitos casos, dentro da legalidade permitida pelo Código Florestal, que exige uma porcentagem menor de preservação (20% a 35%) em comparação com o bioma amazônico. Essa particularidade faz com que a simples análise de desmatamento ilegal seja insuficiente para mensurar os compromissos ambientais das empresas, além de deixar 78% das fazendas de pastagem do Cerrado fora dos sistemas de monitoramento usuais, que se concentram na Amazônia Legal.

Considerado a savana mais biodiversa do mundo e ocupando cerca de um quarto do território brasileiro, o Cerrado já perdeu quase metade de sua vegetação nativa, com mais da metade dessa área convertida em pastagens. Os dados mais recentes indicam que o bioma liderou o desmatamento no país pelo segundo ano consecutivo, sublinhando a urgência de medidas mais eficazes por parte do setor pecuário para conter a degradação ambiental e garantir a sustentabilidade do agronegócio nacional.

Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br

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